EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, O GARGALO DO AVAC-R BRASILEIRO

Representantes de quatro pilares que compõem a cadeia produtiva do frio – projetos, academia, indústria e governo –, interessados em debater e encontrar soluções para os desafios em torno do tema “Eficiência Energética”, sentaram-se à mesa-redonda matutina realizada em 25 de novembro, derradeiro dia do 17º CONBRAVA.

Coordenada pelos engenheiros José Carlos Felamingo, sócio-diretor da Union RHAC e um dos pioneiros na implantação de sistemas de cogeração no Brasil, e Ênio Bandarra, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Uberlândia, a atividade teve como linha de debate o impacto do aquecimento global no AVAC-R.

Formaram a mesa os engenheiros Sandra Ricardo Botrel e Silva, diretora-presidente da Protherm – Projetos Termoacústicos (projeto); Roberto Peixoto, professor no Instituto Mauá de Tecnologia (academia); Luciano de Almeida Marcato, gerente nacional de vendas da Daikin (indústria); e Jefferson Borghetti Soares, assessor da Diretoria de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (governo) – sendo que este último participou online. 

Ao dar início aos trabalhos, Felamingo fez um apanhado sobre as matrizes energéticas do país – solar, eólica, hidrelétrica, geotérmica, biomassa e biometano (biogás), ondas e marés, hidrogênio, combustíveis fósseis e nuclear – e mostrou números da EPE sobre a representatividade de cada uma e comentou um pouco sobre o impacto delas no Brasil.

“O efeito da pandemia no consumo de energia no país fez com que em maio de 2020 a demanda tenha sido 10,7% menor do que em 2019. E segundo a EPE, chegamos a 2021 com 186 gigawatts de potência instalada, mas não utilizamos tudo. A projeção do Ministério de Minas e Energia é que em 2030 tenhamos 236 GW. A energia hidráulica atualmente equivale a 59% da nossa capacidade instalada. Em 2030, ela será de 49%”, pontuou. 

Primeira a apresentar suas considerações sobre o tema, a engenheira Sandra Botrel ponderou que a área de arquitetura nem sempre recebe bem determinados tipos de ideias, incluindo acerca de eficiência energética, mas é preciso convencê-la a adotar uma nova visão sobre a relação do condicionamento de ar e dos projetos desenvolvidos, levando em consideração, por exemplo, o envoltório da edificação.

“Antes de buscarmos um sistema eficiente, precisamos tentar intervir no prédio, e quem é projetista sabe o quanto isto é difícil. Só teremos um prédio inteligente, com um projeto inteligente. O mesmo vale para um sistema de ar-condicionado eficiente, conceito que deve vir da base, e infelizmente esta matéria ainda não proporciona este foco nas faculdades”, afirmou.

Representante do poder público, pelo cargo que ocupa na Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Jefferson Borghetti Soares enfatizou que a questão da eficiência energética está há muito tempo na agenda do governo. Desde a década de 1980 e ao longo dos anos, por exemplo, o país vem contando com programas de economia de energia elétrica, como o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) e o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE).

“O Brasil tem uma notória lacuna de consumo per capita. O país ainda tem um índice de posse de equipamentos de ar-condicionado muito reduzido. Em torno de 12% do consumo energético das residências são derivados do sistema de condicionamento de ar, e a posse desses equipamentos está muito aquém para servir de base comparativa com outros países, que contam com melhor oferta de conforto térmico”, expôs.

Doutor em engenharia mecânica pela Poli-USP na área de energia em fluídos e pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), o professor Roberto Peixoto falou na sequência, confirmando que as previsões mostram que a quantidade de condicionadores de ar no mundo crescerá sem parar nas próximas décadas.

“A estimativa é que cheguemos a 5 bilhões de condicionadores de ar instalados no planeta em 2050, de acordo com relatório da Agência Internacional de Energia, pois anualmente 140 milhões de aparelhos entram em operação”, salientou.

Peixoto argumentou ainda que para haver uma redução da carga térmica, é necessário adotar as melhores práticas nas construções de edificações e no uso de materiais. Além disso, comentou, “devemos melhorar ainda mais a eficiência energética dos novos equipamentos, usando fluídos refrigerantes adequados”.

Do alto dos seus 25 anos experiência no segmento de ar condicionado, o engenheiro Luciano de Almeida Marcato reforçou a informação sobre o baixo volume de equipamentos de ar-condicionado hoje instalados no Brasil – em menos de 20% das residências.

“A indústria, de componente a grandes sistemas, fabrica equipamentos eficientes, entretanto de nada adianta se não há um projeto eficaz para eles. Nosso trabalho, enquanto fabricante e indústria, é desenvolver a tecnologia e prover informação a todos os canais, como projetistas e instaladores. A indústria precisa falar não apenas em eficiência, mas em como aplicá-la de forma eficaz em sistemas de condicionamento de ar e refrigeração”, enfatizou o especialista, que atualmente é coordenador do Comitê de Eficiência Energética da ABRAVA.

Por fim, o professor titular da Universidade Federal de Uberlândia Ênio Bandarra complementou o debate ao chamar a atenção para um problema histórico do AVAC-R nacional – a dependência de informações técnicas oriundas do exterior. 

“O pessoal costuma copiar as coisas do exterior, o que é aplicado lá fora, e acaba não desenvolvendo produtos tecnologicamente aplicáveis aqui na nossa região”, lamentou o engenheiro, concluindo que a cooperação entre indústria e universidade é a saída mais viável para suplantar esta e outras dificuldades enfrentadas pela cadeia produtiva do frio brasileira.